Padre Manuel Bernardes

Por Mesquita Pimentel

Estranho e lastimo que nenhum crítico jamais se haja abalançado a estudar em conjunto e por miúdo as obras do P. Manuel Bernardes, o mais puro e elegante, porventura, de todos os clássicos portugueses. Muitos escreveram dele, é certo, com louvor, geralmente, e, por vezes, com ênfase, mas nem sempre com acerto. Agostinho de Campos, por exemplo, seduzido por uma superficial analogia, comparou-o ao incrédulo e sensual Anatole France de que é, pelo espírito, verdadeiro antípoda. Se fazia questão de compará-lo a algum escritor francês de renome, poderia escolher melhor o símile e sem grande dificuldade. A Montaigne, por exemplo, se assemelha Bernardes pela bonomia, pela naturalidade na expressão, pelo gosto de narrar casos singulares, pelo uso que, como ele, fez de “florestas” e “silvas de vário assunto”; — com Racine se parece pelo estilo sóbrio, polido, elegante, assim como pelo espírito elevado e piedoso; — a Bossuet, também, se pode comparar pela eufonia do discurso e pela segurança da doutrina; — mas entre todos os escritores franceses o que apresenta com ele maiores afinidades é, seguramente, La Bruyère: o mesmo gosto pelos assuntos morais, o mesmo dom de observação psicológica, a fé e o respeito pela mesma religião, a mesma pureza de linguagem, o mesmo dom de ser conciso e claro, e, sobretudo, a mesma habilidade em achar expressões adequadas e mordazes, a mesma vivacidade de espírito, o mesmo talento de variar continuamente o modo de apresentar as ideias… 

Bernardes é, talvez, o mais perfeito dos estilistas lusitanos. A sua linguagem, posto que conservando o torneio da sua época, mal envelheceu, contudo, e, com ligeiras alterações, se reputaria moderna, tão correntia e simples é, ao mesmo tempo tão exata e primorosa.  

Dos três prosadores que os entendidos, como Fidelino de Figueiredo, consideram os maiores mestres da língua portuguesa — Luís de Souza, Antônio Vieira e Manuel Bernardes — este último é, sem dúvida, o que hoje se lê com maior agrado e proveito: seu estilo é mais gracioso e terso que o do primeiro, assim como mais singelo, ameno e lhano que o do segundo; e se nas suas obras não sem encontram os descortinos penetrantes e largos de Vieira sobre a política de seu tempo, nelas há maior variedade de assunto e mais profundeza de pensamentos que nas de Frei Luís de Souza. 

Para um escritor católico há muito que aprender na leitura de Bernardes, não só quanto à expressão, que é, quase sempre, inexcedivelmente apropriada, límpida, breve e luminosa, como também quanto à doutrina, que é, igualmente, puríssima e claríssima, lidimamente católica e versando de preferência os temas da ascese e da mística, os mais adequados, portanto, a interessarem espíritos ávidos de perfeição e ansiosos por se elevarem, nas asas da orações, até às alturas celestes, onde se encontra a Deus só.  

Das seis ou oito obras que escreveu, a mais conhecida e encomiada é a Nova Floresta, provavelmente porque, sendo destinada ao mero entretenimento das almas em folga, é a mais acessível ao comum dos críticos literários, cuja ignorância do cristianismo e cuja opacidade espiritual os inabilitam para entender e apreciar as outras obras, mais francamente religiosas e teológicas, do ínclito oratoriano.  

Vou citar adiante dois trechos dessa obra para exemplificar a mestria de Bernardes em traçar uma cena pitoresca com vivacidade e pouquíssimas palavras, mas tão bem escolhidas que seria diíficl, senão impossível, substituí-las por outras mais adequadas e expressivas.  

Este é sobre a curiosidade, e, ao mesmo tempo, modelo admirável de espírito e de discrição literária: — “Estava Santo Ephrem, em uma pousada, cozinhando suas pobres viandas; e logo uma mulher, que morava na vizinhança, meteu os olhos pela janellinha que lhe ficava fronteira e pouco distante e lhe perguntou, por graça, si lhe faltava alguma coisa. Sim, falta (respondeu o santo): três tijolos e um pouco de logo para entaipar essa janela” (Nova Floresta, título XVI, exemplo 129) 

Este outro, ainda mais admirável, é sobre a verdadeira alegria dos filhos de Deus: — “Estando em artigo de morte um padre antigo do famoso deserto de Scithes, os outros monges, rodeando-lhe a pobre cama ou esteira em que jazia, choravam amargamente. Neste ponto abriu os olhos e sorriu-se; dali a pouco tempo, tornou a rir; e, depois de outro breve intervallo, deu a mesma mostra de alegria. Causou isto nos circumstantes não pequeno reparo, por ser austera a pessoa e formidável a hora. Perguntaram a causa e respondeu-lhes: “A primeira vez me ri porque vós outros temeis a morte; a segunda porque, temendo-a, não estais apparelhados; a terceira porque já lá vai o trabalho e eu vou para o descanso”. Tornou então a cerrar os olhos e desatou-se seu espírito (Op. cit. tit. II, ex. XIII). 

A doutrina é ótima, o ensinamento picante, a linguagem excelente. Não se poderia dizer mais nem melhor nem com menos palavras. É o sumo da arte de escrever, a qual, no dizer de R. L. Stevenson, se concretiza, tanto na arte de omitir o desnecessário e o inútil, como na de exprimir o que é preciso de modo incisivo, claro, impressionante e singular.  

Páginas como essas se descobrem sem dificuldade na Nova Floresta. Ocorrem-me agora à lembrança aquela que narra deliciosamente a assombrosa aventura do frade que passou três séculos a ouvir o gorjeio de um passarinho, julgando haver-se demorado nessa distração apenas três minutos; — e aquela que conta a prodigiosa história do felizardo que se casara com uma sereia (felizardo porque a mulher era muda); — e aquela outra que explica o infortúnio de três cegos; — e aquela que (de perto nos toca, porque o caso se deu no Maranhão) que expõe o processo judiciário que tiveram de mover às insaciáveis formigas do lugar alguns pobres e necessitados religiosos…  

Basta folhear o livro: a cada página, quase, se nos deparam os bons exemplos, na doutrina e na forma.  

À Nova Floresta, porém, com toda a abundância das suas riquezas literárias, prefiro outra obra do mesmo autor, mais exígua do que aquela, mas não menos valiosa: a que intitulou de Luz e Calor.  

Esta obra do P. Manuel Bernardes é claramente definida por ele desde a página de rosto; destina-se aos que “tratam do exercício das virtudes e caminho da perfeição” e é “dividida em duas partes: na primeira e se procura comunicar ao entendimento Luz de muitas verdades importantes por meio de doutrinas, sentenças, indústrias e ditames espirituais; na segunda se procura comunicar à vontade Calor do amor de Deus por meio de exortações, exemplos, meditações, colóquios e jaculatórias”.  

Compõe-se, como está indicado, de diferentes matérias e creio que nenhuma outra obra encerra, como esta, nas suas poucas páginas, maior variedade de formas literárias nem atesta mais amplamente a opulência e diversidade dos recursos do escritor, assim como a destreza no empregá-los: a um discurso sucede um diálogo, a um apólogo um axioma, as narrativas alternam como os retratos, as observações aguçadas com os suspiros místicos, o humorismo com o ascetismo, e a uma página de abstrata dialética se segue, por ventura, uma de arroubo oratório ou de devaneio poético.  

Não é possível dar em um breve artigo ideia cabal dessa obra cheia de facetas, desse texto “ondoyant et divers”, como o espírito humano de que aí se analisam alguns curiosos aspectos. Contentar-me-ei com respigar alguns trechos, quasi ao acaso, e transcrevê-los aqui na esperança de comunicar ao leitor o meu gosto pelo livro e incutir-lhe o desejo de conhecê-lo. 

Por exemplo, esta imagem, expressiva mas imprevista, só ocorreria a um espírito original e só um exímio escritor saberia aplicá-la com igual sobriedade: — “Fazer uma coisa e mandar ou aconselhar outra é querer endireitar a sombra da vara torcida” (p. 217). 

O mesmo se poderá dizer desta outra: — “Amontoas virtudes, devoções e exercícios pios sem primeiro fazer cabedal de humildade?… levas pó nas palmas das mãos, contra o vento” (p. 228) 

É de crer que La Rochefoucauld não desdenhasse esta “máxima”: — “Ao pródigo e ao avarento falta o mesmo que lhes não falta, porque todos os tesouros da terra e do mar são poucos para tornar, um, a lançá-los no mar, outro, a escondê-los na terra” (p. 214).  

Estes debuxos são traçados com mão leve e firme: — “Há uns homens que fazem bem o mal; outros que fazem mal o bem; e outros que fazem bem o bem. — Os que fazem bem o mal são aqueles filhos do século que, diz o Evangelho, buscam e acham meios oportunos para consumar a sua maldade e para isso são mais prudentes que os filhos da Luz em servir a Deus. — Os que fazem mal o bem, são os que servem a Deus, porém com mil imperfeições  negligênias, como aquele Fariseu que jejuava duas vezes na semana e pagava os dízimos de tudo, porém tinha disso vanglória. — Os que fazem bem o bem, são os que procuram quanto em si é esmerar-se no serviço de Deus, atendendo a seu maior agrado. Estes são os que saem do seu exame plenamente justificados” (p. 85) 

E como não admirar ao mesmo tempo, nestas linhas, a doutrina e a expressão? — “Quem pelo discurso humano presume esquadrinhar os juízos divinos, sonda o mar com uma boia; e quem ao juízo divino pretende encobrir os discursos humanos, tapa o sol com um vidro. Porque para a profundeza de seus conceitos toda a nossa considerações é leve; e para os raios da sua vista, todo o nosso coração é transparente… Vidro chamei ao coração humano: ainda mal que se lhe parece em muitas propriedades, porque não só é para os olhos divinos patente, mas também para a impressão de seus avisos duro e para os golpes de seus castigos frágil” (p. 216) 

O mesmo se dirá das seguintes: — “Se aceitares os conselhos de Cristo, não sentirás pesada a lei de Deus. Ponhamos exemplo. Manda Deus que não cobicemos coisas alheias; e aconselha Cristo que não possuamos coisa própria. Manda Deus que não demos mal por mal, e aconselha Cristo que oremos pelos que nos perseguem e caluniam. Observa tu, como bom religioso, estes conselhos: não quebrarás, como secular, aqueles mandamentos. Toma sobre ti maior carga, sentirás menor peso. Mais custara aos bois levar a carga, se não levassem juntamente o carro e as rodas” (p. 225). 

O que ele nos conta do Zancarrão de Mafoma constitui uma página de ironia sutil e caridosamente aplicada. Embora um pouco longa, merece transcrição.  

Depois de chamar atenção para essa maravilha do catolicismo que é “a real presença de nosso Senhor Jesús Cristo no augustíssimo Sacramento da Eucaristia” e de lastimar a frieza com que muitas vezes o recebemos e o espantoso esquecimento em que frequentemente o deixamos sob essas espécies sagradas, apresenta-nos, em contraste, o seguinte: 

Voltemos agora os olhos e (se se nos perdoa o misturar coisas tão divinas com coisas tão profanas, pelo fim útil e pio que nisso levamos) comparemos esta piedade dos católicos com a adoração de Zancarrão de Mafoma que os Maometanos fazem na casa de Meca. Zancarrão de Mafoma é o osso de uma sua perna, porque dizem eles que subiu ao céu em corpo e alma: porém que seus discípulos, levando mal sua ausência, se lhe penduraram de uma perna, a qual se lhe despegou e com ela ficaram. Suposto que o que na casa de Meca se guarda e venera com imensos dispêndios, não é senão um osso de camelo, o diabo lhes faz crer que é a perna de Mafoma, que foi homem de estatura grande. E para adorar esta relíquia partem cada ano duas caravanas: uma desde o Grão Cairo, ou Babilônia, na qual se ajuntam os peregrinos de toda a África e Efito; outra desde Damasco, onde se ajuntam os de Constantinopla, Caramânia, Síria, Sória, Palestina, etc. E sendo que esta não é tão numerosa, contudo, há anos em que partem duzentos mil peregrinos. 

“O caminho é por areais desertos e secos. Dura a jornada quarenta dias de ida, quarenta de estada e quarente de volta. Em um camelo regiamente ornado vai o cofre com o pavilhão bordado que envia o Grão Senhor (que é o imperador turco) para se cobrir o dito Zancarrão; e de lá traz o pavilhão que serviu no ano antecedente, o qual se reparte todo em migalhinhas para relíquias: quem alcançou alguma se tem por certo da salvação. Matam o camelo para que não sirva mais em outro ministério, — e os pelos dele também são relíquias.  

“A esta romaria vão muitos por sua devoção com os peitos ou braços atravessados com setas; outros com cutiladas nos rostos; outros nus e com várias penitências. Muitos depois que viram o Zancarrão vasam os olhos, dizendo que não é bem vejam outra coisa mais deste mundo… Qualquer dos que visitaram a casa de Meca, prevalece nas causas o seu dito simples ao depoimento de cem testemunhas contestes; e quando de lá vem, todos lhe beijam os vestidos como a santo… 

“Pondera bem, ó católico, e deixa-te penetrar no assombro que estas coisas merecem. Adonde vão tantos milhares de almas racionais com tal fadiga, com tanto trabalho, com tantas despesas?… A adorar a perna de um camelo!… E tu, católico, a quem sucederia o mesmo se nascesses entre os mesmos”, como não te corres de vergonha quando vês que são mais zelosos os infiéis no serviço do demônio, que os engana só para perde-los, do que tu no serviço de teu Senhor, que se faz milagrosamente teu sustento para te salvar para a eternidade?… “Eis aqui que coisa é carecer de lume da Fé, que até se esquece o natural da razão; e, uma vez que o demônio entra com suas ilusões, pode levar os maiores entendimentos a crer os maiores absurdos” (Luz e Calor, edição de 1724, na oficina de Francisco Xavier de Andrade, Lisboa ocidental, págs. 344 a 347). 

Suspendo aqui as citações. Receio, entretanto, que, apesar de numerosas, mal cheguem para entremostrar o valor deste livro. Na verdade, para apreciá-lo é preciso lê-lo e meditá-lo com vagar. Porque se algumas de suas partes esclarecem a inteligência, como o tratado sobre a oração de quietude, o diálogo sobre o silêncio, a anatomia do homem interno, o escrutínio das virtudes falsificadas, outras instigam ardentemente à oração, como os estímulos do amor divino, as meditações sobre os atributos de Cristo, ou o solilóquios da alma desejosa de amar a Deus, verdadeiras elevações espirituais. 

Não importa. O que convém ao homem, não é tanto saber muito, como agir bem. Lá diz o nosso autor: “ser ciente e não ser virtuoso parece ciência dos demônios, porque ninguém na terra sabe mais do que eles e ninguém usa tão mal do que sabe como eles. Deixemos essa ciência dos demônios e apliquemo-nos à dos santos, que é temer e amar a Deus: sabendo-a, tudo o mais saberemos” (p. 76). 

É a esse aprendizado eu este precioso livro nos convida.  

Infelizmente as suas edições estão esgotadas e os raros exemplares que se encontram só se adquirem pelo seu peso em ouro.* 

Praza a Deus que algum editor de iniciativa se apresse a reeditá-lo: achará prontos para comprá-lo tanto os gramáticos e os literatos, como os católicos instruídos que reconhecem nessa obra de Bernardes uma das mais fidedignas escolas que em vernáculo existem para ensinar aos homens de boa vontade o caminho da perfeição cristã.  

(Ensaio transcrito do livro “Alguns Estudos de Literaturas Estrangerias”, de Mesquita Pimentel, publicado pela Editora Vozes em 1943)  

*Os sermões do Padre Manuel Bernardes estão sendo publicados, hoje, pela Editora Pinus, de Brasília/DF. Recomendamos que o leitor adquira também o livro “As Mais Belas Páginas de Manuel Bernardes”, organizado por Mário Ritter Nunes, disponível para venda na Estante Virtual e em lojas físicas.

2 respostas em “Padre Manuel Bernardes”

A editora Pinus de Brasília publicou os sermões do padre, assim como o “armas da castidade” que é maravilhoso também.

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