Na festa de São Pedro e São Paulo, o Papa evocou as chaves como símbolo da unidade da Igreja
Fonte: La Porte Latine – Tradução por André Abdelnor Sampaio
Nosso Santo Padre o Papa Leão XIV, Vigário de Jesus Cristo e Chefe supremo de toda a Igreja universal, celebrou no dia 29 de junho passado, na presença dos cardeais reunidos em Roma por ocasião do Consistório, a missa da festa dos santos apóstolos Pedro e Paulo. Foi nessa celebração que o Papa impôs o pálio aos novos arcebispos metropolitanos.
Na homilia que proferiu nesse dia, Leão XIV insistiu na “solicitude fiel e paciente pela unidade” que cabe ao sucessor de Pedro e que é “muito bem expressa pelo símbolo das chaves, com o qual frequentemente o identificamos (cf. Mt 16, 19)”. E desenvolveu assim a descrição da metáfora: “Uma chave, com efeito, não derruba as portas, mas as abre e depois as fecha, procurando em seu interior as alavancas certas e acompanhando seus movimentos, para que os bloqueios se desfaçam, as fechaduras deslizem e as portas girem livremente sobre seus gonzos, unindo assim os espaços e fazendo dos numerosos cômodos isolados uma única e mesma casa acolhedora”.
Como se deve, portanto, compreender, à luz dessa metáfora, a definição da unidade e da comunhão na Igreja? “Do mesmo modo”, explica Leão XIV, “a comunhão na Igreja não se constrói fixando-se nas próprias posições, mas buscando, no coração de cada um, os pontos de encontro na Verdade, à única luz da qual cada um se torna, para o outro, instrumento de crescimento”. E é aqui que surge a questão fundamental: de que “Verdade” se trata? O bispo de Bourges, Dom Sylvain Bataille, fez recentemente eco a essa reflexão do Papa quando, posicionando-se, em um comunicado datado de 13 de julho passado, a respeito das sagrações realizadas pela Fraternidade São Pio X, o recente sucessor de Dom Jérôme Beau declara: “Não sonhemos com uma unidade de compromisso, fundada na ambiguidade” [1].
Dessa ambiguidade, tampouco nós queremos, tão certo é que, uma vez nela instalado, “todo esforço para dissipar os mal-entendidos não teria outro efeito senão multiplicá-los” [2]. E é justamente por essa razão que, desde suas primeiras origens, a Fraternidade expõe claramente as razões profundas de sua atitude, que são as razões de sua obediência ao Magistério da Igreja católica, ao mesmo tempo em que são também as razões da desobediência do concílio Vaticano II a esse mesmo Magistério. Ainda que a afirmação possa parecer um tanto forte, nem por isso deixa de ser verdadeira.
Mas notemos também que, do lado de Roma e dos episcopados do mundo inteiro, na França como em outros lugares, a ambiguidade é igualmente rejeitada, como inaceitável, e isso em nome dos próprios textos do Concílio, os quais, precisamente, quando lidos à luz de sua lógica profunda, escapam — infelizmente — a toda ambiguidade. Pois eles veiculam uma nova definição da Igreja e de sua unidade, que está em oposição clara e nítida com a definição da Igreja tal como o Magistério nos havia ensinado até então. A unidade da Igreja aparece nesses textos não mais como a da Igreja católica, mas como a da Igreja de Cristo, que “subsiste” somente na Igreja católica, e que está também “presente e atuante” fora da estrutura visível da Igreja católica, nas comunidades separadas, ditas “cristãs não católicas”. A unidade dos cristãos, que se propõe como objetivo o ecumenismo, adquire então todo o seu sentido, fora de qualquer ambiguidade, pois se trata da unidade da Igreja de Cristo, que progride, e que permanece distinta da unidade da Igreja católica. Como diz explicitamente o decreto Unitatis redintegratio do concílio Vaticano II, por essa via do ecumenismo, “pouco a pouco, depois de superados os obstáculos que impedem a perfeita comunhão eclesial, hão de reunir-se, numa única celebração eucarística, na unidade de uma só e única Igreja, todos os cristãos. Essa unidade, Cristo a concedeu à sua Igreja desde o princípio. Cremos que ela subsiste de modo inamissível na Igreja católica e esperamos que ela cresça dia a dia até a consumação dos séculos”. Está aqui claramente dito, fora de qualquer ambiguidade, ao mesmo tempo que: 1) a unidade concedida por Cristo à sua Igreja — logo, a unidade da Igreja de Cristo — “subsiste de modo inamissível” na Igreja católica, e que 2) “esperamos que ela cresça dia a dia”, na medida em que ela está apenas “presente e atuante” fora da unidade da Igreja católica.
Por que, então, a Fraternidade São Pio X é tida como cismática? Simplesmente porque ela recusa essa nova eclesiologia, que pretende estabelecer uma distinção real entre a Igreja de Cristo e a Igreja católica. Essa recusa se expressou ainda recentemente com a Profissão de fé de 24 de junho passado, mas Dom Lefebvre já constatava isso na homilia que proferiu por ocasião das sagrações episcopais de 30 de junho de 1988:
E por que, Excelência (me dirão), o senhor interrompeu esses colóquios que pareciam, no entanto, ter certo sucesso? Precisamente porque, no mesmo momento em que eu dava minha assinatura ao Protocolo (de acordo), no exato minuto, o enviado do cardeal Ratzinger que me trazia esse protocolo para assinar me entregava em seguida uma carta na qual me pedia para pedir perdão pelos erros que eu cometia. Se estou no erro, se ensino erros, é claro que devem me reconduzir à Verdade, no espírito daqueles que me enviam essa folha para assinar, para que eu reconheça meus erros. Isto é: Se o senhor reconhecer seus erros, nós o ajudaremos a voltar à verdade. Qual é essa verdade para eles? Senão a verdade do Vaticano II, senão a verdade dessa Igreja conciliar, é claro! Por conseguinte, é claro que, para o Vaticano, a única verdade que existe hoje é a verdade conciliar, é “o espírito do concílio”, é o espírito de Assis. Eis a verdade de hoje. E disso não queremos, por nada neste mundo, por nada neste mundo!
Quando o Papa Leão XIV diz que a comunhão na Igreja deve se construir “buscando, no coração de cada um, os pontos de encontro na Verdade”, trata-se precisamente, e sem qualquer ambiguidade, dessa nova Verdade do Vaticano II. A Fraternidade, e com ela seus seis bispos, dos quais quatro foram sagrados no último dia 1º de julho, não a querem por nada neste mundo, pois essa Verdade é uma falsa Verdade, ela só tem a aparência da Verdade ao se apresentar com o falso rosto do Magistério, quando na realidade não é senão a expressão dos erros já condenados por esse mesmo Magistério. E a Fraternidade, com seus seis bispos plenamente católicos, espera de todo coração que o Papa e o cardeal Fernandez saibam não se fixar nas próprias posições de uma teologia que, por ter encontrado sua expressão maior no concílio Vaticano II, permanece contestável em mais de um ponto, à luz dos ensinamentos seculares do Magistério da Igreja, tais como resultam claramente da Profissão de fé emitida pela Fraternidade em 24 de junho passado.
Leão XIV termina, aliás, sua homilia de 29 de junho dirigindo com alegria “uma cordial saudação aos membros da delegação do Patriarcado Ecumênico de Constantinopla, enviada por meu caríssimo irmão Sua Santidade Bartolomeu e conduzida por Sua Eminência Emanuel, metropolita de Calcedônia”. Delegação de uma comunidade que, no entanto, permanece ainda cismática, há mais de 9 séculos, mesmo que em 1964 o Papa Paulo VI tenha querido levantar o anátema da excomunhão sofrida por Miguel Cerulário por ocasião do cisma de 1054.
Longe de todo espírito cismático, a Fraternidade professa a mesma fé do apóstolo São Pedro, a fé no Primado do bispo de Roma. Por isso, ela ousa esperar da parte do Santo Padre ao menos uma “cordial saudação”, tanto mais merecida quanto, diferentemente dos bispos ortodoxos Bartolomeu e Emanuel, diferentemente também da senhora Sarah Mullaly, suposta “arcebispo” anglicana de Cantuária e recebida no Vaticano pelo Papa em 27 de abril passado [3], diferentemente ainda dos 14 (6 mulheres e 8 homens) supostos “bispos” luteranos da Noruega, também eles recebidos no Vaticano por Leão XIV em 26 de agosto passado [4], ela pretende permanecer fiel às definições dos concílios ecumênicos de Lyon I e II, de Florença, de Trento e do Vaticano I.
Pe. Jean Michel Gleize, FSSPX
Notas:
https://catolicosribeiraopreto.com/o-arcebispo-de-bourges-diante-das-sagracoes-de-1o-de-julho-pelo-pe-jean-michel-gleize-fsspx-parte-1-de-2/ e https://catolicosribeiraopreto.com/o-arcebispo-de-bourges-diante-das-sagracoes-de-1o-de-julho-pelo-pe-jean-michel-gleize-fsspx-parte-2-de-2/
Étienne Gilson, Matières et formes, Vrin, 1964, p. 20.
https://catolicosribeiraopreto.com/leao-xiv-e-a-sra-mullaly-pelo-pe-jean-michel-gleize/
https://fr.zenit.org/2026/08/26/leon-xiv-la-bonte-et-la-charite-ont-le-pouvoir-de-desarmer/ e https://www.vaticannews.va/fr/pape/news/2026-08/leon-xiv-petits-gestes-bonte-charite-peuvent-desamorcer-conflits.html





