O católico é fundamentalmente alegre, mas a alegria cristã não é fruto de um mero estado de ânimo incompatível com o sofrimento ou com o pranto. Nosso Senhor Jesus Cristo chorou a morte de Seu grande amigo Lázaro. As lágrimas do Homem-Deus nunca são derramadas levianamente. Nada do que o Homem-Deus faz é leviano ou fora do lugar. Também sofreu física e moralmente o mais ignominioso de todos os suplícios, não havendo dor maior que a de Cristo. Não obstante, o Deus-Homem era sempre eminentemente feliz, de modo inigualável e único, dentre todos os homens, pois gozava da Visão Beatífica.

A alegria cristã é fruto do Espírito Santo e vem pelo reconhecimento e consideração constante e crescente que a inteligência faz à luz da Fé sobre sua filiação divina em Jesus Cristo, pela meditação de que se é herdeiro da Glória de Deus pela vida em estado de Graça nesta vida, de que Deus nos ama e quer fazer-nos partícipe de Sua Natureza, quer comunicar Sua Felicidade por meio da irradiação do Amor Divino em na nossa alma e na alma dos demais. Este Amor começa a partir da Fé, que é um dom de Deus, não uma conquista humana, embora devamos ser receptivos e diligentes no cultivo e na guarda deste dom, pela formação assídua na Doutrina da Fé que Deus nos revela, e por contínuos atos de Fé ao longo da vida.

Neste sentido, essa alegria não é uma mera paixão, mas é uma virtude e fruto do Espírito Santo. Mantém-se através da meditação católica praticada diariamente, que aprecia as inesgotáveis verdades sobrenaturais de modo amoroso buscando viver a partir destas verdades apreciadas, sempre com o auxílio da Graça de Deus. Alegria que vem de saber que Deus é Amigo da nossa alma. Por saber que somos pessoalmente chamados a irradiar, ao modo reflexivo com nossa vida, de maneira finita e limitada, as perfeições que Deus possui em Seu Ser de modo infinito e ilimitado.

A alegria cristã não faz alvoroço, não é ruidosa. É uma alegria mais profunda que o mero estado de entretenimento momentâneo e fugaz. Muito mais intensa que uma agitação superficial desregrada das paixões ou do frenesi que o mundo promove.

Certamente ela tem algo de paradoxal e de misterioso, porque provém da Cruz de Cristo.  Mas não é jamais contraditória. É uma alegria compatível com a penitência, com o sofrimento, com a dor física e moral, com a perseguição, com a doença, com a iminência da morte, com o desprezo dos homens. Até mesmo com o fracasso temporal, frustrações e adversidades. Ela é compatível com o luto.

A alegria do católico é serena, mas não é quietista. É apostólica e operante, mas não é ativista. Só o pecado pessoal pode extirpar esta alegria própria e exclusiva da vida católica, por culpa nossa. Nada mais.

Isto é o que os pagãos e demais infiéis não entendem da vida cristã, pois julgam tudo com olhos carnais, cerrados para as realidades superiores — são, portanto, cegos. Analisam praticamente todas as coisas somente por aquilo que estimula os sentidos. Julgam muito superficialmente a vida cristã como “tediosa e insossa” na medida em que ela refreia os apetites concupiscíveis e modera os prazeres sensíveis, pois os mundanos não concebem praticamente nada além da mera gratificação passional. Apegados que estão às seduções e ofertas ilusórias do mundo, os mundanos têm aversão ao silêncio, ao recolhimento, à mortificação.

Os que vivem baseados nos estímulos dos sentidos e dos apetites mais rasteiros ou efêmeros são os chamados “carnais”. Todos nós temos esta tendência e se fôssemos deixados à nossa própria sorte, sem o auxílio de Deus, permaneceríamos assim. Somos feridos pelo pecado original que nos faz constantemente esquecer dos bens mais essenciais e nos prende na afeição aos bens mais banais, ou a bens aparentes, falsos bens. O auxílio divino gratuitamente dado ao homem comunicado unicamente por Cristo, Verdadeiro Deus e Verdadeiro Homem, vai retificando nossas disposições neste sentido.

Os que vivem movidos pelas verdades eternas e fazem uso dos bens temporais — na medida em que eles são meios para a contemplação destas verdades reveladas por Deus que excedem as capacidades humanas — são chamados filhos de Deus. Pois são movidos pelo Espírito Santo de Deus. O cristão frui coisas que os infiéis e mundanos nem imaginam que exista. Pois não conhecem o dom de Deus, mas podem conhecer um dia, se confessarem pelo Espírito Santo que Cristo é o Filho de Deus, Redentor e Senhor Nosso e se incorporarem a Ele pelo ingresso em Seu Corpo, a Igreja, através da profissão da Fé e recepção do Batismo. Quem crê n’Ele como mestre divino e observa Seus preceitos como vindos do Legislador absoluto e infalível, conhece o dom de Deus.

Neste sentido sobrenatural, a alegria é uma obrigação do católico. E o otimismo corretamente entendido, também.

É preciso enfatizar que a realidade da alegria cristã e o dever de preservá-la não quer dizer que o cristão esteja imune à depressão clínica ou a quaisquer doenças psicossomáticas. Nem que o estado físico e psicológico seja completamente alheio ou indiferente à vida espiritual. Não se misture os âmbitos, sem distinguí-los, não se separem os âmbitos, sem considerar a pessoa como um todo composto. É preciso resolver cada coisa no seu próprio âmbito, sem separar, sem mesclar coisas que são de ordem distintas, embora às vezes a linha demarcatória seja bem tênue. É certamente preciso evitar o psicologismo e o naturalismo na vida espiritual, assim como é preciso evitar o sobrenaturalismo que é uma falsa consideração da ordem sobrenatural que busca anular ou eliminar a ordem natural. Ou até mesmo confundí-las. A verdadeira Fé não é de modo algum uma “auto-sugestão” ou “wishful thinking”. Nem um ato arbitrário do fiel. Mas uma virtude teologal infusa por Deus com um conteúdo essencial bem estabelecido.

É também preciso saber que diante de tudo, Deus nos concede a Graça suficiente para buscá-Lo, não nos põe em ciladas, nem jamais nos prega peças, obrigando-nos ao impossível. Concede ao justo Graça suficiente para evitar o pecado, e nos deu meios seguros, visíveis e palpáveis para que não percamos a alegria propriamente sobrenatural: os Sacramentos.  Em especial, o Sacramento da Penitência, onde contritamente acusamos de nossos pecados e somos absolvidos por Jesus Cristo através das palavras do sacerdote que atua em Sua Pessoa, pode ser chamado do Sacramento da Alegria. Pois por meio da dor suma e sobrenatural dos próprios pecados, a confissão auricular e o propósito firme de emenda, por este Sacramento é devolvida a vida divina à alma, que é a fonte da alegria cristã. Este é o otimismo cristão: tudo pode ruir, mas se estamos em Graça de Deus, firmes na Fé, constantes na Esperança e ardentes na Caridade, nada está irreversivelmente perdido, o essencial está garantido e transcende infinitamente todas as intempéries deste vale de lágrimas.

É uma obrigação do cristão cultivar esta alegria, pois ela é o termômetro de sua entrega e devoção a Deus, é uma consequência do enraizamento da Graça na alma.

por André Abdelnor Sampaio

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